Quando o Inter-SM pisar novamente nos gramados da Série A do Campeonato Gaúcho, no domingo, o sentimento de novidade vai dividir espaço com a memória. Para alguns, não será a primeira vez. Há quem já tenha vivido esse reencontro com a elite estadual em 2008, ano que marcou o retorno do clube após sete temporadas na Divisão de Acesso, e que agora presencia, novamente, o Alvirrubro entre os grandes do futebol gaúcho.
É o caso de Chiquinho, ex-jogador daquele elenco histórico e hoje dirigente do clube, e de Paula Menezes, torcedora de longa data. Eles ocupam diferentes posições no estádio, mas dividem o mesmo sentimento de quem nunca deixou o Inter-SM para trás.

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Chiquinho, duas vezes Série A pelo Inter-SM

Em 2008, Chiquinho era jogador. Daquele ano, ainda lembra do som do Estádio Presidente Vargas, do elenco e da sensação de estar, novamente, na série A do Campeonato Gauchão. Tudo parecia grande: o adversário, a responsabilidade e o desejo por um bom desempenho. A estreia, contra o Internacional de Porto Alegre confirmou essa premissa. Era um adversário estrelado, vencedor fora do país e acostumado com decisões, lembra Chiquinho. Ainda assim, diante da Baixada lotada, o empate em 2 a 2 mostrou que o ano poderia ser diferente.
Aos poucos, o elenco entendeu que não estava ali apenas para cumprir tabela. A torcida respondeu. A cidade também. O campeonato cresceu jogo a jogo, até se transformar em algo maior do que o esperado: o terceiro lugar no Gauchão e o título do interior marcaram a melhor campanha da história do clube na competição. Um feito que atravessou o tempo, afirma Chiquinho:
– Foi algo surpreendente. A expectativa era positiva, mas não a ponto de imaginar que faríamos história naquele ano. A torcida abraçou a causa, a comunidade abraçou a causa e os atletas entenderam o propósito daquele momento.
A campanha de 2008, apesar de distante no tempo, ainda vive na memória do ex-jogador: a Baixada cheia, o jogo de igual para igual contra gigantes do futebol gaúcho, a semifinal fora de casa diante do Juventude e o gol que, até hoje, é lembrado por torcedores.
– Muita gente lembra daquele gol até hoje. Foi um gol muito bonito. Mas, acima de tudo, ficou o fato de o clube ter feito a melhor campanha da sua história no Campeonato Gaúcho – diz o atual gerente de futebol.

Vieram mais três temporadas na elite, a queda em 2011 e mais de uma década na Divisão de Acesso. Para Chiquinho, a virada começou fora de campo a partir de 2023. Com uma nova gestão executiva, o Inter-SM passou a priorizar organização, continuidade e profissionalização. Fatores que, na visão de Chiquinho, são fundamentais em um projeto esportivo:
– Começamos a entender como a gestão do clube é fundamental para o desenvolvimento da instituição. Passamos a valorizar o que estava funcionando e a deixar de lado aquilo que não ajudava, estruturando o clube de uma forma mais profissional.
Em 2026, agora como dirigente, Chiquinho encara mais uma vez a Série A. Para ele, viver esse retorno fora das quatro linhas carrega um significado especial:
– A prioridade é a permanência na primeira divisão. A partir disso, quem sabe sonhar novamente com uma campanha histórica, mas com os pés no chão e muita responsabilidade.
Da arquibancada, torcedora revive a elite do Gauchão

Em 2008, Paula Menezes, 38 anos, chegava cedo ao Estádio Presidente Vargas. Tradição que se manteve nos anos seguintes. Da época, ela lembra do crescimento da torcida e da sensação de que algo importante acontecia em Santa Maria. Naquele ano, também, as viagens passaram a fazer parte da rotina. Paula não faltou a nenhum jogo fora de casa.
Entre tantas lembranças, a torcedora destaca a semifinal contra o Juventude, no Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul. Ela lembra do estádio tomado de verde, a festa do adversário e o peso de decidir fora de casa.
– Foi uma festa imensa do Juventude, tudo muito bonito para eles. Mas dentro de campo o goleiro Goico fez defesas sensacionais. A gente voltou de lá com o resultado no bolso e dizendo: ‘Agora vai’. Acreditávamos de verdade que dava para ir à final – relembra a torcedora.
Não foi. Mas, para ela, aquele time já tinha vencido de outra forma: com a união, que ia além do placar. Depois vieram os anos difíceis. A queda e a longa permanência na Divisão de Acesso. Paula acompanhou todos esses anos, sem abandonar o estádio. Com o tempo, percebeu mudanças importantes, não apenas no clube, mas também na arquibancada.
– A Paula de 2008 estava aqui praticamente só com os meninos. Hoje, a Paula vê muito mais mulheres no estádio, e isso é muito necessário. Ver isso hoje me deixa muito feliz – diz.

O acesso conquistado em 2025, que devolveu o Inter-SM à Série A, foi vivido por ela no limite do corpo e da emoção. Antes do jogo contra o Veranópolis, Paula sofreu uma queda na arquibancada e precisou sair de ambulância do estádio. Ainda assim, medicada, insistiu em voltar.
– Eu estava morfinada, com muita dor, mas dizia: ‘Pode dar o remédio, mas eu quero ver o jogo’. Quando falaram em ir para casa, eu disse: ‘Casa não, eu vou para o estádio’. Cheguei no portão, me reconheceram, abriram e disseram para eu entrar. No momento em que eu entrei… saiu o gol. Foi uma emoção indescritível – conta.
Agora, em 2026, o retorno à elite tem outro significado. Para Paula, é continuidade: de uma história pessoal e de uma relação construída jogo a jogo com o Inter-SM.
– Eu espero viver muitas vitórias, muitos abraços, ver mais mulheres e crianças no estádio. Isso enche o peito. Não adianta subir e não se manter, a gente precisa se manter lá, junto com a torcida. Que o Presidente Vargas esteja sempre lotado – finaliza.
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